30.8.16

ÁLVARO DE MOYA NO CHUTINOSACO!

Um Esclarecimento Aos Amigos do "Chutinosaco": Esta "Chutientrevista" está pronta para postagem desde 28 de Janeiro de 2016. É que eu contactei e também esperava a participação de Francisco Ucha - o jornalista amigo de Moya - que poderia acrescentar mais informações importantes sobre o nosso querido artista. Infelizmente, depois de vários contatos e meses de espera - Ucha não enviou suas respostas - e por isso, eu optei para brindar sómente agora os que nos seguem - com uma rápida, mas bem humorada entrevista!
 
Imaginem que estão frente à frente com um mito dos Quadrinhos, Rádio, TV e Cinema do Brasil...e que êste ser humano genial além de ser um profissional extremamente competente e bem sucedido em todas suas empreitadas, ainda demonstra ser humilde e generoso?
Certamente definiriam assim uma pessoa verdadeiramente multimídia! 
Agora vocês conhecerão um pouco da obra de Álvaro de Moya, mais um "Mestre Disney de Todos os Tempos" - num bate-papo incrível!





28/01/2016

"Caro Luiz.
Desculpe o atraso para responder suas questões, mas acabei me confundindo com os e-mails.
As respostas seguem abaixo. Espero que goste. 
Um feliz 2016 para você também.

Um abraço,
Álvaro de Moya"



1) Desde que você folheava ávidamente as páginas do álbum do "Flash Gordon" - de seu irmão: como foi, e quando começou  sua carreira?
E quais suas lembranças de quando conheceu os autores: Walter George Durst, Cassiano Gabus Mendes e o ator Lima Duarte, quando participaram da inauguração da TV Tupi? (A primeira estação de TV do Brasil)


R: No bairro de Santana - zona norte de São Paulo - tinha festinhas todos os domingos - inocentes bailinhos ao som de Glenn Miller e Tommy Dorsey. Num dêles, um jovem chamado Pedro me abordou e disse que ouviu falar que eu desenhava bem e que o irmão dêle era profissional e me deu seu enderêço: "Rua Duarte Azevedo", em Santana.
Era o João Gitay, que gostou do meu lápis e me ensinou a passar tinta nanquim com pincel "Winsor Newton".
Nós líamos muita literatura para saber escrever quadrinhos e íamos à "Cinelândia" ver filmes. 



*** NOTA DO EDITOR

A "Cinelândia" a que Álvaro de Moya menciona na entrevista era no centro de São Paulo nos anos de 1950, e era composta por sete salas de cinema dispostas naquela região, que eram: Paissandu, Metrópole, Ipiranga, Comodoro, Arouche, Las Vegas e Copan.
Hoje em dia, não existe mais a "Cinelandia", infelizmente.




Seguíamos na Rádio Tupi o crítico de cinema Walter George Durst, o qual, num dos programas, falou de quadrinhos: Al Capp e Alex Raymond. 
Telefonei para a Rádio e o convidei a conhecer um estúdio de quadrinhos. Esperamos sentados na calçada. Ele "mancou".
Decidimos ir visitá-lo na "Cidade do Rádio", mas João (Gitay) não quis ir. Êle era muito reservado. 
Enturmamos com o pessoal da Rádio, que viria a ser a "Turma da TV Tupi". 



















O Durst me recomendou para desenhar os letreiros do show de inauguração da quarta televisão do mundo. 
A primeira foi a americana NBC; a segunda, a BBC de Londres; a terceira, CMQ - de Cuba. No Brasil, a data foi 18 de setembro de 1950.



2) Desenhista, Jornalista, Roteirista, Professor, Produtor e Diretor de Cinema e TV - certamente você é o primeiro exemplo de pessoa multimidia, como conhecemos hoje. Agora, nos fale como você conheceu: Jayme, Syllas, Reinaldo e Miguel, seus parceiros na "Primeira Exposição Mundial dos Quadrinhos" em 1951? 






R: A turma dos amigos de João Gitay, incluia Syllas Roberg, um bancário que escrevia muito bem e conhecia muito de literatura.
Nós três acompanhávamos a "Gazeta Juvenil" e sugeri ao Syllas um roteiro de faroeste e João ilustrou uma página, mas não quis ir à redação.
Messias de Mello, o desenhista-chefe, gostou do desenho mas não aceitou a colaboração. Quando íamos saindo, decepcionados com a grande página em côres nas mãos, Jayme Cortez pediu para ver o desenho e nos convidou para ir à casa dêle na Rua do Hipódromo, na Moóca, sábado à tarde. E nos demais sábados. 
Nessa casa, comendo batatinhas feitas pela Dona Edna, mulher do Jayme, conhecemos um operário gráfico que desenhava muito bem e era apadrinhado pelo Cortez: Miguel Penteado.
O mesmo que eu tinha proposto a Gitay, sugeri ao Cortez fazer a capa de uma revista chamada "O Terror Negro", cujo número nas bancas tinha um desenho distante da arte dos quadrinhos.
Êle fêz uma capa sensacional que pulava nas bancas com o estilo que o consagraria como um dos "grandes" do terror brasileiro. 



Fomos os três no bairro de Vila Mariana, na Rua Pedro de Toledo - numa casa com pedras vermelhas no muro numa entrada lateral lá no fundo, onde havia uma garagem, que era a Editora La Selva.
Num canto do fundo da garagem, um mulato estava de costas na máquina de escrever. Era o editor gráfico Reinaldo de Oliveira.
Estava formada a turma!



3) Como foi sua participação na Editora Abril? E por favor, nos conte sobre o seu convívio com: Victor Civita e o desenhista Jorge Kato, entre outros profissionais que trabalharam com você nesta época.





R: Parênteses: Entre a TV Tupi e a Editora Abril aconteceu a famosa "Primeira Exposição Internacional de Quadrinhos" no bairro judeu do Bom Retiro. Fim do parênteses.
Eu tinha facilidade de copiar não só Alex Raymond, como também Hal Foster, Burne Hogarth, Will Eisner, Al Capp, Milton Caniff e outros.
Fui convidado pelo Cláudio de Souza para aprender o estilo Disney com o artista argentino Luis Destuet.
Passei a desenhar todas as capas de "O Pato Donald" e "Mickey".













Fiquei admirador de Victor Civita - embora como moleques ficávamos criticando os Estados Unidos num mural que criamos com o nome de: "A Patada".



Eram tempos da Guerra da Coréia.
Além do Cláudio, tinha o Jorge Kato, Micheline Gaggio, Reinaldo de Oliveira, João Batista Queiroz, o argentino Radamés Pera, e outros.



4) Depois de participar como diretor artístico da TV Paulista, durante o seu estágio na CBS-TV nos EUA (A convite do governo americano) quais as personalidades do cinema e dos quadrinhos, que você entrevistou para o jornal "Folha de São Paulo"?


R: No "Department of State", em Washington, dei uma lista de personalidades que queria entrevistar: Milton Caniff, Al Capp, Arthur Miller, Paddy Chayefsky, Rod Serling, John Frankenheimer (Trabalhei ao vivo num grande teleteatro em Hollywood, com êle no switch) e Sidney Lumet. Estive com êle em Nova York, acompanhando o seu trabalho na NBC, já em côres, onde ele preparava uma transmissão ao vivo de um teleteatro baseado num conto de Ernest Hemingway.


 Acompanhei os ensaios e a exibição da peça ao lado dêle o tempo todo! Fiquei conhecendo o "método Lumet" em tôdos os futuros filmes dele.



5) Em 1960, você revolucionou a televisão brasileira através da proposta moderna da TV Excelsior, de um modêlo de programação que perdura até hoje. Poderia relembrar os principais momentos dessa emissora - e o que acredita ter sido a causa de seu fechamento, dez anos depois? 


R: No meu livro "Glória in Excelsior", com a colaboração de muitos profissionais da época, como José Bonifácio de Oliveira (Boni), Julio Medaglia, Cyro Del Nero, Manoel Carlos, Antunes Filho, Bibi Ferreira, Ziembinski e uma equipe de nível internacional, eu conto essa história. 




As diversas edições do livro foram esgotadas e agora ele está acessível gratuitamente também no site da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, neste link...acessem!

http://aplauso.imprensaoficial.com.br/livro-interna.php?iEdicaoID=49



6) Em 1967, inaugurou a TV Bandeirantes e lá, dentre tantas coisas, em 1982 também produziu a novela: "Os Imigrantes" (Benedito Ruy Barbosa). Como foi participar destas duas fases distintas?


R: O dono da TV Bandeirantes, João Saad, me apresentava aos amigos dele dizendo: "Êsse menino colocou a minha televisão no ar, sózinho". Foi no dia 13 de maio de 1967.
No dia 31 de maio, apesar do Saad me apoiar, eu fui despedido.

Eu produzi a novela "Os Imigrantes" em 1982 como um dos grandes "chefões de Hollywood" (MGM, Fox, Columbia, etc). Deu "Ibope" (Instituto de Medição de Audiência) inédito desde a inauguração da TV Bandeirantes até hoje, alcançando dois dígitos: mais de 20%.



Vendi a novela para a Itália sem receber nada, pois meu contrato era só como produtor.
No meio do sucesso da novela, Walter Clark me despediu. 
Os compradores italianos da produção cancelaram a compra, alegando que tinham comprado outra novela e não essa "porcaria" que acabou ficando depois de nossa saída.



7) Como você analisaria a TV brasileira hoje em dia (Influência da Internet) , primeiramente como um tôdo (TV Aberta e a Cabo) e o que pensa da situação que vive a "TV Cultura"? 


R: A TV aberta tem somente a "TV Cultura" com qualidade. 
Na TV paga, tem o Canal "Curta" e a bem lograda ideia da Rede Bandeirantes, o "Arte1".
Também tem a "Globo News" e diversos canais intermediários, e na "HBO", documentários muito bons.




8) Em 1974, durante a viagem aos EUA, aonde e como foi o encontro entre Lee Falk, Mauricio de Sousa e você? E como foi a conversa entre Maurício e Stan Lee, nesta época? (Êle disse que você foi seu intérprete, por isso lembraria) E sua amizade com Will Eisner?




















 
R: Lee Falk: Mauricio e eu já o conhecíamos desde Lucca até Nova York, em 1970.




Stan Lee: Também era nosso conhecido desde Lucca e Nova York. A conversa? Pergunte para o Maurício.



***NOTA DO EDITOR

Maurício de Sousa havia respondido antes ao roteirista Roberto Guedes sôbre o mesmo  assunto:

- "Infelizmente, não tenho lembrança de como foi o papo com Stan Lee, exceto de que foi aquela (Coisa) de fã!
Afinal, êle era um dos meus ídolos de então. Salvo engano - na ocasião - êle comentou do lançamento do "Homem de Ferro" (?)...mas não tenho certeza.
Quem deve lembrar melhor é o Álvaro de Moya - que estava presente e foi o meu intérprete (Meu inglês era, e continua a ser sofrível).
Na próxima, eu levo um "Diarinho"! (Risos)
Já encontrei o Moya depois dêsse papo, mas esqueci de perguntar". 



Will Eisner: Em 1958, com uma bolsa de televisão oferecida pelo Governo Americano, pedi a André Le Blanc, que estava em Nova York, para me apresentar ao "Mestre" de nós dois. 
Em todos os meus livros, ou quase todos, existe o registro de nosso encontro. 
O início da amizade, até o fim da vida dele.  



9) "Era Uma Vez um Menino Amarelo"...desde 1966 você chefiou a Delegação brasileira para os Salões de Comics na Itália, até 1998. 
De quantos prêmios, inclusive o "Yellow Kid" participou, e os artistas que teve oportunidade de conhecer nestes eventos?


R: O "Menino Amarelo" serviu de título para o primeiro capítulo de meu livro, "Shazam!". 


Coincidentemente, Lucca adotou o personagem para seu prêmio máximo, o "Yellow Kid".
Nesse período, Lucca era a "Cannes dos quadrinhos".



Hoje, "Angoulême" mantém a tradição cultural. 
Já na "Comic Con" americana é apenas um "panegírico" na produção indefectível dos super-heróis.
Will Eisner sempre disse que quadrinho de super-herói é unidimensional.
Em "Lucca", os maiores do mundo dos quadrinhos e da animação, inclusive da Europa Oriental, eram dezenas e centenas de autores. 



10) Além de seu amigo Carlo Chendi (Recentemente entrevistado por mim) quais outros artistas dos quadrinhos (Disney ou não) que conheceu pessoalmente - e comente qual foi sua impressão de cada um dêles, usando apenas...uma palavra?


R: Em uma palavra é impossível de definir os grandes autores dos quadrinhos, muitos dos quais já citei nesta entrevista e que sempre falo nos meus livros.
Quanto à "Disney" - em 1992 dois senhores até comemoraram seu aniversário em Lucca - os grandes veteranos: Frank Thomas (1912-2004) e Ollie Johnston (1912-2008)!



11) Muito obrigado novamente por me dar a honra de entrevistá-lo. Gostaria que deixasse uma mensagem final para os amigos e visitantes do meu blog.



R: Um abraço a todos os amigos e leitores deste blog e continuem prestigiando o bom quadrinho, nacional e mundial!


ÁLVARO DE MOYA

6 comentários:

  1. SIMPLESMENTE INCRÍVEL!!!!! VALEU AMIGO LUIZ!!!!!

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  2. Sem palavras Luiz...muito obrigado mesmo!!!!!

    Vargas

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  3. Fabulosa entrevista, parabéns! O homem é uma enciclopédia viva , pois participou ativamente de quase tudo de 1950 pra cá !

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  4. Olá! Obrigado pela oportunidade de conhecermos mais sobre essas personalidades.

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  5. Grande artista, muito boa a matéria.
    E o livro indicado por ele é fenomenal!

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  6. Luiz, parabéns pela iniciativa de registrar parte das memórias do mestre De Moya.

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