Ao ler os comentários do amigo João Labrego colocados no "Chutinosaco"...achei necessário colocar sua opinião aqui, numa postagem especial sobre o compartilhamento - a internet - a paixão pelos gibis, nosso passado presente, reflexões - enfim... mais uma autêntica "história de gibis"! Só peço aos amigos, colaboradores e visitantes que deixem um comentário abaixo sobre este texto emocionado e maravilhoso. Na verdade, ele fala por todos nós!
"Lembro-me dos anos 70, quando a TV ainda não era tão difundida como hoje e tínhamos nas bancas de jornais nossa principal fonte de entretenimento: revistas em quadrinhos, bolsilivros, fotonovelas, jornais, etc.
Hoje, ao entrar neste blog à cata de novidades senti-me como se estivesse nos anos 70 procurando avidamente pelas novidades gibizescas e não fiquei nem um pouco decepcionado.
Naquela época valorizava-se a leitura e se ensinava melhor nas escolas justamente porque o povo tinha na leitura sua principal fonte de entretenimento.
Hoje, com a popularização da TV, dos video-games, da Internet, etc. pouca importância se dá nas escolas ao ensino da língua portuguesa.
Concordo em gênero (apenas masculino e feminino), número e grau com suas palavras mas o que vejo no mundo é a super-valorização da socialização do indivíduo, ou seja, torná-lo carente de recursos que o façam sentir-se bem de maneira individual.
A religião, por exemplo, ajuda o indivíduo a nunca sentir-se só pois convence o indivíduo de que ele sempre terá Deus ao seu lado pronto a ouvi-lo e ajudá-lo nos momentos mais difíceis de sua vida.
Por esse motivo a religião vem sendo atacada constantemente.
O hábito da leitura como forma de entretenimento também tem o mesmo efeito sobre os indivíduos, ou seja, quem sabe ler e gosta de ler tem uma fonte inesgotável de entretenimento por toda a sua vida e nunca se sentirá só pois sempre terá nos livros seus melhores amigos e companheiros que o ajudarão a suportar melhor os momentos de tédio que a vida lhe oferecer.
A família também é uma fonte de satisfação para o indivíduo de muitas de suas necessidades na vida. Quando a pessoa sente-se solitária costuma visitar seus parentes e, através do amor de um pelo outro, consegue amenizar a solidão em si.
Oras, pergunto eu: qual o objetivo de se retirar da população esses recursos?
Eu mesmo respondo: as economias do mundo ocidental evoluiram de tal maneira que para continuarem crescendo indefinidamente é necessário que se fomente o consumismo entre o povo.
Quanto mais solitário o povo se sentir mais necessitado ele ficará do mercado e dos lazeres públicos que este lhe oferecer.
Muita gente de minha geração acha que não é mais possível na idade em que estamos voltarmos a gostar de revistas em quadrinhos como antigamente.
A questão é apenas de dispender algum esforço e constância no mesmo, pois nosso cérebro ainda tem muitas vias neurais que foram interrompidas no passado em função de novas necessidades que foram surgindo.
Por exemplo, quando chegamos à adolescência não tínhamos mais como nos ocupar de nossas frustrações infantis relativas a gibis que ainda não tínhamos lido, já que a necessidade de parecermos adultos para as garotas era soberana em nós.
Hoje, já passado dos 40 anos de idade e tendo as minhas necessidades de homem adulto já satisfeitas, para mim é com grande satisfação que retomo as leituras de minha infância sinto o mesmo prazer que sentia antes e até mais ainda, pois fui uma criança muito frustrada em minhas vontades infantis e depois de adulto não tive mais como pensar nelas para satisfazê-las, sem passar por idiota ou infantil aos olhos dos outros.
Meu conceito infantil de ser rico era ter uma caixa com centenas de gibis para eu ler, livros de aventuras aos montes e também uma TV para assistir meus filmes e seriados.
Hoje, tudo isso se realizou através da Internet pois tenho todos os filmes e seriados gravados em HDs e os assisto, tenho um acervo de mais de 20.000 gibis em formato digital, tenho mais de 50.000 ebooks em formato PDF, enfim, todos os meus sonhos infantis se realizaram e hoje não carrego mais aquela sensação de pobreza dentro de mim.
É verdade: eu, mesmo ganhando bem, sempre me senti pobre e estranhava isso. Não entendia o que ocorria comigo e por isso, eu não conseguia crescer socialmente, limitando-me aos meus amigos de infância e da escola para me relacionar socialmente.
Depois dos 40 anos de idade em que fui realizando meus sonhos de riqueza da infância, comecei a sentir pela primeira vez em minha vida que sou uma pessoa rica.
He, he... A gente tenta se compensar de uma infância insatisfatória através do dinheiro mas não adianta muito enquanto não satisfizermos aquela criança que fomos no passado em seus sonhos de grandeza e riqueza na vida."
JOÃO LABREGO - OUTUBRO DE 2012